Ano velho
Muitas a menos
31 de dezembro de 2025.
Um clássico é escrever algo, rever o ano, pensar no próximo. Um clássico também é olhar, de forma contemplativa ou depressiva, para aquilo que foi. Eu, hoje, estou contemplativa. Fui levar minha cachorra para passear no nosso novo prédio. Temos uma área pet agora, e ela já vai direto para lá. Ela anda e cheira enquanto eu fico sentada num banquinho debaixo de uma árvore.
2025 me trouxe muita coisa bonita. Eu me mudei, arrumei um apezinho que hoje tem a minha cara (e a do meu namo), ganhei dinheiro por fazer o que eu gosto. Eu me estressei e fiquei exausta de um jeito que, estranhamente, me é prazeroso. Escrevi muita coisa, mas poucas newsletters. Publiquei uma resenha e um capítulo de livro. Fiquei orgulhosa de mim mesma.
Fui menos à academia do que no ano passado, ganhei uns quilos. Aprendi a fazer focaccia. Meu pai fez um armário pra mim que, às vezes, me dá vontade de chorar. Eu poderia ficar aqui passeando pela memória, contando os feitos e não feitos por muito tempo. Mas, enquanto eu estava na área pet hoje, eu não pude deixar de notar que, depois que esse espaço foi inaugurado, eu me senti mais segura. Porque 2025 me trouxe também muito medo.
Entrelaçado ao tempo das coisas boas, esse ano me lembrou - através da dor - que passear com a minha cachorra pelo caminho de sempre pode ser perigoso. E, pra tudo que eu fazia no verão passado, agora me falta coragem. Não consigo pensar em ir pra praia do rio tavares sozinha, porque a trilha me dá medo. Saio de noite com as minhas amigas e, na volta, peço um uber com ansiedade. Tenho vontade de trancar minhas amigas em casa porque quando eu estou segura, eu me preocupo com elas.
Esse ano os casos de feminicídio aumentaram no Brasil. 2025. Em novembro, Catarina foi morta por um desconhecido enquanto ia pra aula de natação, numa praia muito frequentada. Na época da graduação, eu e a Cata dividíamos o mesmo grupo de amigas. As suas fotos correram os noticiários de todo o país. Depois dela, Tainara foi atropelada e arrastada pelo ex; duas mulheres foram mortas pelo colega de trabalho. A lista continua.
Para nós, moradoras da ilha, o feminicídio da Cata talvez nunca pare de reverberar. Eu queria acreditar que os tempos difíceis vão passar, mas os últimos meses foram assustadores. É difícil fazer a voz não embargar. Eu não consigo deixar de sentir que a gente falhou. De novo. Que depois de tanto tempo, tanta coisa, tanta luta, ainda não foi suficiente pra ela só chegar na natação. Cata, eu sinto tanto. Tanto.
Mas eu também sei que é justamente assim que eles querem que a gente me sinta. Impotente. E eu sei que, assim como foi em 2025, em 2026 a gente vai ter que seguir juntas. Transformando lutos coletivos em força pra viver - e pra lutar. Eu não sei o que mais a gente vai ter que fazer pra que essa dor não seja em vão, mas eu sei de quem cobrar. E eu espero que, no próximo ano, eu consiga trazer a dor como motivadora pro meu trabalho, para que em algum momento a gente possa parar de chorar.
Enquanto isso, eu espero também poder voltar a escrever sobre as coisas boas. Dessa vez não deu, mas quem sabe na próxima. Não por coincidência, meu votos pra 2026 são de amor, paz, saúde e feminismo. Sem chacinas nas favelas, sem corpos pelo chão. Que eu passe mais tempo com as minhas amigas, principalmente aquelas que eu vi pouco no ano que passou. Que a gente habite as sombras de um guarda-sol na areia, e não só a sombra da árvore no banco da área pet.
Espero poder ser contemplativa.
Feliz 2026.



é impossível para mim pensar no Matadero e nao lembrar da Cata :( espero que em 2026 o medo nao nos impeça de viver. e que continuemos escrevendo mesmo quando nada parece fazer sentido
linda e forte escrita. que 26 seja um ano melhor. feliz em te ver escrever por aqui amiga ❤️